26 de setembro de 2020

Quanto vale uma semente?

Um checklist completo para não errar no plantio da soja

Consideremos plantar soja em um espaçamento de 0,45 m.

Dividindo 1 hectare (10.000 m²) por este espaçamento, obteremos o total de 22.222 m lineares (considerando linhas retas).

Se falharmos uma única semente em cada 10 m plantados (o que, para os termos médios da plantabilidade é uma perda padrão), deixaremos de visualizar a possível germinação de 2.222 plantas de soja por hectare (resultado obtido pela divisão de 22.222 m lineares por 10 m lineares).

Em média, no Brasil, cada planta de soja produz 30 vagens com 2,5 grãos cada. Com um total aproximado de 75 grãos por planta e considerando a perda supracitada de 2.222 plantas, deixaríamos de colher o aproximado à 170 mil grãos de soja.

O peso médio de 1.000 grãos de soja é de 180 g. Perdendo-se 170 mil grãos, deixamos para trás o equivalente a 30 kg de soja por hectare (0,5 saca). Isso é claro, considerando que falhemos apenas uma única semente a cada 10 m de soja plantados.

Uma única semente conta?


“O plantio determina o potencial produtivo da lavoura. Depois disso, você só reduz as perdas que vão acontecer durante todo o ciclo”, enfatiza Rogério Miyasawa, especialista de plantio da New Holland.

O sistema produtivo sempre possuiu um único insumo vivo em sua cadeia e nós o conhecemos de longa data. Semente, grão, bago, sêmen, embrião e como agronomicamente gostamos de chamar, a origem de quase tudo o que ingerimos.

Ao cultivar uma lavoura -seja ela de soja, milho, trigo, hortifruti-, nós comumente (e por um descuido incompreendido de importância) damos pouca atenção à semente que iremos cultivar. Não só erramos na escolha das variedades que melhor se adaptam ao nosso ambiente produtivo, como tampouco “lustramos o berço” em que elas serão depositadas. Se acredito que há algum momento em que o produtor rural deva estar inteiramente presente na lavoura, este momento certamente é o plantio.

O termo ‘plantabilidade’, ainda pouco referenciado tecnicamente, vem sendo utilizado por engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas e profissionais do setor para explicar o que nós inúmeras vezes, deixamos para depois – o indispensável capricho.

Plantabilidade também pode referir-se à um conjunto de técnicas utilizadas para diminuir perdas (de quaisquer origens) no plantio de grãos. Na soja, por exemplo, alguns fatores são indispensáveis para garantir a plantabilidade ideal. São eles:

  • Sementes uniformes (peneira e peso);
  • Regulagem e dosador precisos;
  • Tratamento de sementes (preferencialmente industrial);
  • Utilização correta e precisa de grafite;
  • Velocidade ideal de semeadura;
  • Deposição correta do tubo condutor de sementes;
  • Distribuição uniforme da palhada.

Cada um desses fatores pode afetar positiva ou negativamente a plantabilidade da soja, resultando em uma maior ou menor eficiência no uso de insumos posteriormente adquiridos para a lavoura. Isso porque, de nada adianta investir em aplicações de excelência sem antes, priorizar o único insumo vivo presente no sistema produtivo.

Para exemplificar a importância da plantabilidade, destacaremos aqui 3 fatores:

a) Tratamento de sementes industrial e utilização de grafite

Popularmente conhecido como TSI, o tratamento de sementes industrial realizado sob uma mistura prévia e precisa de fungicidas, inseticidas e inoculantes é imprescindível para o estabelecimento uniforme das lavouras de soja no Brasil. Isso porque, a proteção inicial dos campos é primordial para que a semente possa emergir e se desenvolver quando ainda não possui estruturas de defesa estabelecidas. Uma lavoura uniforme com uma população adequada de plantas depende deste tratamento. Por outro lado, os produtos utilizados pela indústria química podem também alterar as características superficiais da semente, prejudicando a sua deposição no tubo condutor, nos discos de semeadura e tão propriamente no solo, dado o aumento do atrito com os mecanismos. É por isso que, comumente, produtores rurais utilizam grafite (um lubrificante seco e em pó), que favorece o escoamento da semente pelos sulcos de semeadura. A recomendação média do lubrificante é de aproximadamente 5 g por kg de semente. O uso indevido de grafite pode desfavorecer o escoamento do grão, formando crostas e obstruindo os orifícios dos discos da semeadora.

b) Velocidade de semeadura

Quando plantamos soja, contamos com um fator que muitas vezes pode enganar-nos pelo descuido: a plasticidade da cultura. Característica esta, que na leguminosa, pode compensar as perdas por sementes falhas e/ou duplas em função da população de plantas total. Segundo Copetti (2003) ¹, quando há erros de semeadura, a soja suporta variações máximas de até 15% sem que ocorram prejuízos expressivos para a produtividade. No entanto, ultrapassamos este percentual com facilidade em nossas lavouras.

A distribuição desuniforme de plantas na linha pode diminuir drasticamente o aproveitamento dos recursos disponíveis como água, nutrientes e luz. A má distribuição das sementes pode desencadear o desenvolvimento de plantas de porte distinto, menos ramificadas, com menor diâmetro de haste, menor formação de raízes adventícias e ainda, com propensão ao acamamento.

É por isso que, a velocidade de semeadura é um fator imprescindível para a distribuição de sementes na linha com excelência. Um maior número de plantas falhas pode ser facilmente associado com a alta velocidade de plantio (normalmente maior que 6 km/h) bem como um maior número de plantas duplas pode ser relacionado à uma baixa velocidade (comumente menor que 4 km/h). A velocidade ideal referenciada pela literatura varia entre 4 e 6 km/h.

c) Distribuição da palhada

A distribuição da palhada no solo interfere diretamente na qualidade da semeadura, afetando positiva ou negativamente o desempenho da semeadora. Uma alta quantidade de biomassa murcha no solo pode causar o que popularmente conhecemos como “embuchamento”. Isso ocorre porque a palha murcha tem uma resistência muito maior ao corte que a palha seca ou verde e esse movimento faz com que as sementes fiquem depositadas sob a superfície do solo e não sob interior do sulco; impossibilitando à possível germinação.

“Qualquer operação agrícola depende do equipamento, das condições do ambiente e das habilidades de quem está na operação do sistema”, diz Leandro Gimenez, professor doutor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).


A plantabilidade pode ser entendida como um conjunto de práticas que visam diminuir os riscos de plantas falhas e/ou duplas na lavoura, bem como busca a distribuição uniforme de plantas no campo produtivo, a distância precisa entre os embriões e a rentabilidade de grãos ambicionada pelo produtor rural.

Atentar-se aos cuidados necessários para uma plantabilidade eficaz é o nosso dever enquanto profissionais do ramo, bem como depositar capricho e carinho em todos os manejos que circundam o sistema produtivo -e em especial, àquele que é seu pontapé inicial.

A agricultura, assim como a vida, está nos detalhes.

 

 

Por Fernanda Dourado
Instagram: @ferdourado1

 

 

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